O segundo e mais aguardado dia em El Chaltén começou com chuva.  Era fraca, mas o suficiente para criar tensão: será que vai atrapalhar a trilha? Explico. Esse era o dia para o qual estava marcada a caminhada até a Laguna de los Tres – a Torre Eiffel de El Chaltén: local mais aguardado da viagem, aos pés do cerro Fitz Roy.

Eu, que nunca havia feito nenhuma trilha a não ser a que sobe o Pão de Açúcar, e estava viajando sozinha, achei melhor contratar um guia. Apesar de não gostar de viajar com guias (prefiro ir no meu ritmo), não me arrependi. Escolhi a Walk Patagônia, que respondeu prontamente a meu e-mail e esclareceu minhas dúvidas sobre o grau de dificuldade da trilha. Gostei bastante deles terem ligado para o albergue onde eu estava hospedada no dia anterior ao passeio para confirmar o horário da saída.

Existem duas opções de trilha para a Laguna: uma que sai de El Chaltén e outra que sai da Hostería El Pilar. Da primeira, o início da trilha já é por uma subida íngreme. Como trata-se de uma trilha longa (23Km ida e volta, cerca de 9h ao todo), a saída pela Hostería, a 17Km de El Chaltén, é menos cansativa. Para chegar lá, no entanto, é preciso contratar um transfer (cerca de AR$200). Esse deslocamento já estava incluso no pacote que contratei com a Walk Patagonia, que cobrou, por tudo, US$85.

Em um ônibus especial, a empresa buscou todo o grupo (10 pessoas com o guia) em seus hotéis e partimos margeando o Rio de las Vueltas, em direção à Hosteria El Pilar. Nosso guia, Pablo, era muito gentil e, logo de início, deu dicas sobre as camadas de roupa: para enfrentar a chuva fraca que caía, era melhor usarmos casacos à prova d’água, mas, assim que chegássemos à floresta de Lengas, estaríamos protegidos do vento frio. Ao longo do percurso, para não perder calor, recomendou que usássemos gorro. Vez ou outra, nos lembrava de passar protetor solar, porque, mesmo com o frio, nos queimamos facilmente nessa região.

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Trilha por floresta de Lengas

Éramos um grupo bastante distinto com pessoas jovens e idosas e, para que todos acompanhassem o ritmo, ele fazia paradas estratégicas, quando não poupava detalhes sobre a fauna e flora, as montanhas e os glaciares que passávamos pelo caminho: Marconi, Eléctrico, Cagliero e Vespignani.

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Mirador do Glaciar Piedras Blancas
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Planície antes de chegarmos ao acampamento Pointcenot

Ao chegar no acampamento Pointcenot, nosso grupo se dividiu entre os que iriam subir até a Laguna de los Tres e os que retornariam à El Chaltén. Três franceses de idade desistiram ao ver a subida íngreme e pedregosa – eu mesma quase disse que não conseguiria. Até ali a caminhada tinha sido tranquila e agradável, mas só consegui completar a subida de 400 metros porque eu estava com o guia. O caminho, que as vezes se resumia a pedregulhos, seguia por um precipício. Pablo dividiu o trecho em três etapas. A cada uma delas, parávamos por dois minutos para beber água e recuperar o fôlego.

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Subida para a Laguna de los Tres

Ao final, a vista é recompensadora. Mesmo com o Fitz Roy encoberto, é uma experiência única almoçar observando a lagoa de Los Tres e a Lagoa Sucia e com, às nossas costas, a vista para a região que havíamos caminhado e o vale que iríamos percorrer ao retornar à cidade. Pablo nos contou que antes de se mudar para El Chaltén trabalhava em uma galeria de arte – “usava terno e gravata”. Foram as Cataratas de Foz do Iguaçu que o fizeram largar a vida da cidade, mas cercada de grandes montanhas, com lagos azuis à meus pés, foi fácil entender a motivação dele.

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Laguna de los Tres

O retorno trouxe ótimas surpresas. Assim que descemos, as nuvens que encobriam o Fitz Roy se dissiparam. Foi difícil dar as costas a esse espetáculo, mas logo chegamos à Laguna Capri, onde sentamos para um piquenique e observamos o sol fazer as nuvens evaporarem da grande montanha. Tal fenômeno garantiu-lhe o nome tehuelche de “montanha fumegante” e fez com que, por muitos anos, acreditassem que o Fitz Roy fosse um vulcão.

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Fitz Roy visto da Laguna Capri

O caminho de volta é o mesmo para quem escolhe sair de El Chaltén rumo à Laguna de los Tres. O final da caminhada foi de descida, no meio de uma floresta. Boa parte da trilha havia sido adaptada para reduzir os impactos da deterioração da terra causada pelo homem. Tal feito, descobri depois, se deve ao trabalho voluntário de moradores da cidade.

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De volta a El Chaltén: vale do Rio de las Vueltas

Vinte e três quilômetros depois, sob chuva, vento, sol e até um pouco de neve, chegamos a El Chaltén. Faria tudo de novo.

Mapa de links:

Patagônia Argentina: selvagem e inesquecível

El Calafate e Perito Moreno

El Chaltén – Dicas Gerais

El Chaltén – Dia 1 – Mirador de los Cóndores e Chorrillo del Salto

El Chaltén – Dia 3 – Laguna Torre

3 comentários em “Patagônia Argentina: El Chaltén – Dia 2

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